quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

CAPÍTULO IV - Uma longa viagem pela frente

Dúvidas?
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Capítulo IV - Uma longa viagem pela frente

Logo pela manhã, Sanoj, o fiel cocheiro de Miranda, apareceu no acampamento. Eles precisavam de um transporte maior pra levar o corpo de Lerandra através da ilha para pegar o barco no porto em Nasthia. Diferente das aventuras que viveram até agora em Argos, essa era uma empreitada sem muita glória. Principalmente porque teriam que viajar incólumes com o corpo da heroína, pois ainda havia muitas patrulhas de Armaduras Fantasma por aí.
Sem grandes despedidas, chegou a hora de Telus, Cronus, Galiléia e Khosta partirem. Para trás ficou Miranda, que resolveu dissolver o acampamento para a própria segurança dos ocupantes. Como ela mesma irá em breve viajar para a capital com Alambique, mesmo que a contra-gosto, seus comandados ficariam em perigo caso o Barão resolvesse atacá-los. Peter Paul ainda ficaria mais um pouco ajudando no que podia. Ou tentando não atrapalhar. Era um clima um pouco melancólico, já estavam todos ali juntos há vários meses. É engraçado como algo ruim como um governo tirano tenha conseguido juntar tanta gente boa.
O bardo brindou a todos com uma canção da despedida. Por sorte, Telus já estava longe para descer da carroça e “se despedir” do chato trovador.

– Você sabe como chegar lá, cocheiro?
– Seu Telus, pense num monte de vezes que um cabra já possa ter feito esse trajeto? Pois eu já fiz o dobro de vezes!
– Falando nisso, ô cabeça chata, ninguém sabe que você veio aqui, sabe? – intrometeu-se Khosta que ia lá atrás escondido com os outros.
– Não, pela caridade, sigilo absoluto!
– E você sabe se tem algum barco que vá para o país de Cervantia? – perguntou Khosta num tom mais baixo.
– Hômi, com certeza se não tiver um, tem dois.
Telus entrou na conversa:
– Khosta, que mal lhe pergunte, o que é você veio fazer aqui no Império de Titânia, tão longe da sua terra?
– Hummm, olha quem fala! A terra dos anões é bem longe daqui também. – respondeu o mago com outra pergunta.
– Mas eu nasci em Argos! Qual a sua desculpa?
Cronus foi mais um a se intrometer:
– Deixa eu adivinhar. Veio em busca de fama e fortuna! Todo mundo vem a Titânia em busca disso. É a terra das oportunidades! “Onde o homem comum pode se fazer sozinho da noite pro dia”.
– Isso parece coisa de pacote turístico – disse Galiléia lá atrás.
– Pois é, “terra das oportunidades”... – ironizou Khosta. – E cá estamos nós, os heróis libertadores de Argos, sacolejando numa estradinha de barro sem nem uma almofada no banco de trás... Sem ofensa, cocheiro.
– EPA, não fala mal do meu país na minha frente, mago! – esbravejou o anão. – E você enrolou, enrolou e não respondeu minha pergunta. Por que não tentou a sorte no seu país? Como mago, teria muito mais chance.
– Já ouviu falar em oferta e procura? – respondeu Khosta.
– Não...
– Humm... E “Em terra de cego, quem tem um olho é Rei”?
– Ah, entendi – disse Cronus. – Em Avalônia você teria muito mais dificuldade de se dar bem porque lá teria muita concorrência “mágica”. Acho que foi um dos motivos pelo qual eu saí da terra dos elfos e vim pra cá. A busca pela diversidade!
– E vocês ainda precisam comer muito feijão com arroz, Huá-Há-Há! – avacalhou Telus.
– É, Telus, se a sua percepção entendeu assim, já tá de bom tamanho. – avacalhou mais ainda Khosta.
– Tamanho? O que quer dizer com isso?
Sanoj interrompeu o papo antes que virasse uma briga, pois teriam que pagar um pedágio na ponte a frente. Pedágio do Barão, não vamos nos esquecer, uma prova de que a sombra da tirania estava longe de deixar Argos mesmo com a sua primeira derrota.
– Khosta, paga o homem! – disso Telus em tom determinado.
– EU? Por que eu? Eu nem faço parte mais da comitiva oficial, só estou de carona até o porto.
– Por que você ENCHEU O RABO DE PLATINA na mina, por isso!!!
– É, fala alto mesmo pra aparecer um monte de Armaduras Fantasma! E, antes de mais nada, eu deixei quase tudo com a Miranda para ela levar pro seu César, tá bom?
O mago, mesmo relutante, pagou o pedágio. Era uma ponte pequena sobre um córrego que separava duas regiões. Dali em diante ainda tinham uns dois dias de viagem até o porto. De fato, chegariam mais rápido se não estivessem de carroça.
Cronus passou todo o tempo ao lado do corpo. Pareciam mais unidos agora do que quando ela estava viva. Lerandra era muito reclusa e Cronus um pouco tímido. Mas agora ele era tudo que ela tinha, o único elfo a quilômetros. De repente, era como se eles fossem da mesma família.

*****

Uma chuva fina brindou a comitiva molhando especialmente Telus e o cocheiro que ficavam na frente. Lá atrás, muito melhor instalados, os três passageiros tentavam passar o tempo conversando.
– Tem alguém esperando você em Cervantia, Augustos?
Por mim? Não, Galiléia. Não há ninguém esperando por mim em lugar algum... – respondeu o mago, tentando disfarçar uma solidão à qual já estava acostumado, mas que sempre o incomodou.
 – Então o que vai fazer lá? Poderia vir conosco até a terra dos elfos!
Cronus se manteve calado. Sabia que corria o risco de levar um carão de seus compatriotas ao tentar entrar com um anão na capital. E levar um mago avaloniano não ajudaria em nada. Antes que Khosta respondesse uma ventania balançou a carroça.
– O que é que houve aí fora, meu amigo? Tá dormindo no ponto? – disse o mago.
Telus respondeu já pegando a espada:
– Fiquem quietos!!! Algo passou por nós vindo lá de trás, mas a chuva está muito cerrada, não deu pra ver o que foi!
Cronus saiu da carroça e subiu na maior árvore que avistou. Telus sacou a sua nova espada e sentiu um padrão nisso tudo.
– Fiquem na carroça, eu vou descer e depois você toca os cavalos pra longe daqui, Sanoj!
– É aquele dragão de ontem, não é?
Telus não se atreveu a responder ao mago com medo de ser mesmo verdade e desceu em silêncio. O cocheiro obedeceu e acelerou pela estrada.
– O que está havendo lá fora?
– Loirinha, acho que aquele dragão negro já andou ouvindo as histórias sobre “Telus, o domador de dragões” e não gostou.
Telus, no meio da estrada olhou pra cima em busca de uma pista. Se o dragão se guiasse por faro, coisa que ele, em sua ignorância, não tinha como saber, não conseguiria achá-lo com a chuva. Então teria que vê-lo.
Infelizmente, a carroça foi mais fácil de ser vista.
– Maldição! – resmungou o anão, correndo em direção aos amigos assim que viu o enorme dragão negro dando um rasante em cima da comitiva.
Mas antes que Telus chegasse perto e antes mesmo que o pobre cocheiro urinasse nas calças de medo uma explosão de luzes apareceu no focinho do dragão, que mudou de direção na última hora. Foi quando Cronus apareceu no ar saindo de um feitiço de invisibilidade e, com as mãos ainda brilhando, disse em alto e bom tom:
– Voando que nem uma fadinha, né, félad%$#?!?
O dragão continuou em frente, mas agora na direção de Telus, que vinha correndo atrás da carroça. Até agora, anão e dragão estavam no 1 a 1. Cara-a-cara com seu inimigo, Telus de espada em punho, esperou pelo inevitável desempate.
Khosta e Galiléia pularam da carroça ainda em movimento. A freira em direção do amigo anão, enquanto pedia a bênção da vitória e Khosta... Bem, vamos dizer que também era a sua intenção. O dragão pousou na frente de Telus e com as patas dianteiras já anunciava o ataque. Telus, com a espada rebateu a patada que veio da direita, mas a da esquerda o jogou contra a árvore mais próxima.
Khosta, já fora da carroça, abriu seu livro e começou a conjurar algo quando uma adaga vinda de cima perfurou a página que lia precisamente em cima do feitiço escolhido. Ele olhou pro alto em busca do atirador, mas antes de ver qualquer coisa, sentiu as mãos queimarem. Instintivamente largou no chão sua única herança que começava a pegar fogo de dentro pra fora.
Telus, atordoado e ouvindo os sinos da catedral de Titânia dentro da própria cabeça, procurou, ainda no chão, sua espada, mas dela só encontrou o cabo e um resto de lâmina quebrada. E a sua frente, uma cabeça do tamanho de um forno a lenha se posiciona tomando fôlego e se preparando pra uma cusparada ácida. Era o momento para uma prece na secreta língua dos anões. Mas Telus só teve tempo para dizer “Dois a um pro dragão negro”. E logo depois sentiu caindo pela suas vestes de couro uma chuva de moedas de ouro e um machado que, na queda, se fincou no chão bem entre suas pernas abertas, quase lhe amputando as “jóias da família”.
Ele olhou para o machado... olhou para o que quase perdeu entre as pernas... olhou as moedas que rolavam no chão e olhou para cima, bem nos olhos do dragão. E em sua mente pôde ouvir “Estamos quites, pequeno bufão!”. Antes de Cronus chegar voando de espada em punho o dragão negro toma impulso e se joga no ar, batendo suas asas que brilhavam com a água da chuva fina e tomando seu rumo.
– TELUS! Você tá bem?
O anão se virou para o elfo e encostou a cabeça na árvore enquanto resmungava “Continua um a um...”. Galiléia chegou logo em seguida pra ver se Telus tinha se machucado. Cronus, ainda voando, observava o dragão sumindo no horizonte pela segunda vez na mesma semana. E de repente se deu conta de uma coisa:
– Ué, cadê o Khosta?
– Deve ter subido em uma árvore... Ai...
– Fique calado, Telus, estou curando suas costas com uma benção. – bronqueou a freira.
Não acreditando que o mago tenha subido mesmo numa árvore para se esconder, Cronus procurou em volta e achou os restos de seu livro chamuscado no chão. Teria o mago sido incinerado? Atingido por um raio? Sofrido combustão instantânea? Um grito mais a frente acabou com suas dúvidas:
– SEU IMUUUUUUNDO!!!!
A carroça já estava a pelo menos um quilômetro a frente e os três ficaram ali tentando descobrir de que direção veio o grito:
– Acho que veio daquele riacho à direita! – disse Cronus, sempre impulsivo, voando na frente.
– Vamos segui-lo, Telus. Podem ser Armaduras Fantasma. Não vai pegar seu machado?
– Meu machado... Ah, sim, ele é meu agora, não é? – respondeu Telus ainda de olho nas várias moedas de ouro no chão – Vamos ver com o que esse avaloniano magrelo se meteu!
Cronus seguiu voando entre as árvores e conseguiu ver Khosta, possesso da vida, gritando impropérios em direção ao tal riacho.
– VOCÊ TEM ALGUMA IDÉIA DO QUE FEZ??? Aquilo era tudo o que me restava da minha família, seu escroooto!!!!
Cronus observava sem nada entender. E Galiléia e Telus, um pouco mais atrás, idem. Mas Khosta via, flutuando num facho de luz negra, um velho (bem velho, aliás) conhecido: o bruxo aliado ao Barão.
– Avaloniano, aquele seu raio na caverna foi uma proeza e tanto. Eu não posso mais correr o risco de você conjurá-lo de novo por aí. Aliás, como um verme maltrapilho como você conseguiu um feitiço assim? Vocês estão recebendo ajuda de alguém?
Khosta não respondeu, mas começou a conjurar baixinho um novo feitiço. Os outros três, não enxergando o bruxo ancião, começam a se aproximar:
– Ficou maluco, Khosta? Tava falando com quem?
– COM ELE!!! – Gritou o jovem mago arremessando dardos de luz em direção ao inimigo. Os dardos voaram e começam a contornar o nada, como pirilampos voando em zigue-zague em plena luz do dia.
– Eles não podem me ver... nem ouvir. Eu não os ataquei. Ainda. – disse o velho bruxo. E do fundo do lago, um redemoinho de lama negra se formou assumindo uma forma humanóide de triangulares olhos vermelhos. Foi aí que o bruxo apareceu com seu manto negro cheio de traças e a cara enrugada.
– O VELHO DA TORRE!!! – Apontou Telus com a mão esquerda, sendo surpreendido pelo seu machado que começou a tremer. Não só isso. O machado brilhava e começava a soltar faíscas. E depois se atirou em direção ao velho... com Telus junto.
– Mas que p...
– Olha a boca, Cronus... – repreendeu Galiléia que começou uma oração – "Mestres e protetores! Imortais e deuses! Livrai-nos das maldades, quebrantos, dissabores e dos perigos! Livrai-nos! Livrai-nos! Livrai-nos!".
Uma aura de pureza os envolveu antes que os monstros de lama chegassem perto, mas Telus já tinha voado em direção ao bruxo que, espantado só teve tempo de desaparecer antes de ser cortado ao meio pelo anão alado.
            – O QUE É ISSO??? Com mil diabos, é você quem está fazendo isso, Khosta? – gritava Telus sem conseguir se soltar do Machado Voador. No chão, os seres de lama continuavam tentando avançar pra cima de Cronus, Khosta e Galiléia sem conseguir ultrapassar a barreira.
            – Aquele imuuundo tem que estar aqui perto... Senão os monstros teriam se dissipado!
            – Não ataquem as criaturas de lama! Elas nada podem fazer contra nossa fé. – alertou Galiléia.
            – Diz isso pro Telus!
O elfo aponta pra cima e todos vêem Telus retornando com o machado voador. No chão, o anão guerreiro retomou o controle da arma e se tornou o alvo dos dois.
– Vamos ver se além de bom de vôo, você também é bom de corte!
Telus deu o primeiro golpe e quase entrou pela “barriga” do homem de lama. Com o movimento de retirar a arma, ele dividiu a criatura que, agora em duas partes, rastejava no chão sem representar ameaça alguma.
– Próximo! – disse o anão, com o machado muito bem seguro com as duas mãos.
Galiléia se virou para Khosta e, com a voz rouca e os olhos avermelhados sussurrou:
– Vocês são cheios de surpresas, mas não são os únicos. Cuidado com a ajuda que estão recebendo. Ninguém faz nada de graça... e você sabe disso, não é, avaloniano?
– Sei. Sei também que a sua adaga de fogo vai entrar pelo seu pescoço AGORA se você não sair de dentro da freira!
Cronus viu a cena e gritou para que Khosta parasse, mas foi atacado por trás pelo segundo ser de lama. O círculo foi quebrado. O corpo de Galiléia caiu inerte, sendo amparado por Khosta antes de chegar ao chão.
Telus, muito confortável com seu novo brinquedo, arrancou a “cabeça” do homem-lama enquanto Cronus mirava nos pés. Divididas em uns seis pedaços, as duas criaturas eram chutadas e picotadas pelos dois enquanto Khosta saía com a freira ainda desacordada, mas livre da possessão, nos braços.
– Ai, ai... Vocês dois podem cuidar desse bolo de chocolate aí sozinhos. Eu espero vocês lá na estrada pra alcançarmos a carroça.

*****

Galiléia só acordou no dia seguinte, na carroça, a poucas horas de chegarem na vila portuária de Nasthia. Khosta lhe contou o que aconteceu e ela ficou sem jeito por ter sido tão facilmente dominada. Khosta assumiu uma mea-culpa, pois sabia que o bruxo fez isso para provocá-lo.
– Que bom que acordou, Galiléia. Você deve estar faminta, vamos parar pra fazer uma boquinha?
– Aquele bruxo me deixou com um bolo atravessado na garganta, mas eu poderia comer algo, sim. Obrigada, Cronus.
– Ei, tem gente acordando aí atrás, é? Eu e o Rasga Céus estávamos ficando preocupados.
– Rasga o que? – perguntou a freira.
– Ele deu nome para arma, não liga não... – explicou Khosta.
– DEI NÃO, ele é que se chama assim, ele me disse!
– Desculpe, Telus, mas até agora eu não ouvi seu machado dizer nada!
– Pois pra mim, Cronus, ele fala até demais. Ele é mais tagarela que o Peter Paul!

Enquanto Telus mimava seu machado, Khosta pensava no que seu enrugado inimigo disse. Sobre ter cuidado com quem os está ajudando. Teria ele se referido a misteriosa dama de negro de seu sonho? E, se o bruxo era tão poderoso quanto se fez parecer, porque não os eliminou ali mesmo?
– Senhor Augustos, eu sinto muito por ter perdido seu livro de família.
– Corta essa de “senhor”, loirinha. Mas obrigado. Como eu não nasci ontem, tenho tudo anotado em alguns papéis escondidos, não cheguei a perder conteúdo. Só perdi mesmo a mensagem manuscrita que me deixaram... Que meus pais me deixaram. Antes de ir, Miranda me passou novos feitiços que posso desenvolver do meu jeito. E começar meu próprio livro, talvez.
– Acho que em Cervantia conseguirá comprar um grimório tão bonito quanto aquele.
– Bem... Eu não vou mais pra lá. Algo me diz que aquela não foi a última vez que aquele velho bruxo cruzará nossos caminhos. E vai ser bom ter aliados para me ajudar a apertar aquele pescoço magro.
Galiléia e Cronus sorriram enquanto Telus cochichou para Sanoj lá na frente:
– Esse cara gosta de fazer uma onda mesmo! Eu sabia que ele ia o tempo todo!
– Pense num homem cheio de gueri-gueri!

*****

Já era noite num certo castelo quando a rainha chegou e, de pronto, recebeu o recado deixado por sua fiel oraculista. Na companhia da chefe da guarda real, ela desceu uma longa escadaria e, numa sala bem guardada, pôde ver com seus próprios olhos uma grande runa com doze símbolos gravados.
– Um deles se acendeu hoje à tarde conforme previsto, majestade. Foi o machado.
A bela rainha sorri e agradece a sua divindade.

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