quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

CAPÍTULO V - De Argos para o mundo

Dúvidas?
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CAPÍTULO V- De Argos para o mundo

O porto de Argos ficava em Nasthia, uma vila mais desenvolvida do que o resto das comunidades da ilha. Mesmo assim, ainda era um lugar pequeno, pouco maior do que uma vila de pescadores. Digamos que, se você acordasse depois de uma bebedeira em um navio que tivesse atracado lá, não faria a menor ideia se estava dentro do Império de Titânia. Poderia ser qualquer lugar que falasse latim, o que incluiu quase todos os portos do continente.

Aliás, talvez você esteja curioso para saber um pouco mais sobre o panorama histórico-político naquele ano de 1001. Os leitores costumam ter essa curiosidade. As leitoras, nem tanto.

Um único continente, que nós chamamos de Mundo Civilizado, abrigava os países mais desenvolvidos daquela época. Entre o já citado Império de Titânia e o Reino de Avalônia que ficava numa grande ilha a oeste do continente, estava o pouco desbravado Reino de Celtária, terra de antigos castelos e misteriosas florestas. Na ponta oeste desta faixa continental, a caliente e sempre amistosa Cervantia, paraíso mercantil das pequenas empresas e dos grandes negócios. Rumando ao norte, temos as montanhosas Terras das Rochas Geladas, lar dos reclusos anões, as verdejantes florestas-cidades de Álfheimr, a terra mágica dos elfos e outras nações que, tirando uma ou outra pendenga sobre fronteiras, vivem hoje em paz, graças aos trabalhos constantes de diplomacia. Eu não vou me alongar neste parágrafo, pois teremos tempo para falar sobre esses países no futuro.

Pois bem, a vila de Nasthia, mesmo não tendo a pomposa arquitetura cosmopolita da capital titaniana era, pelo menos, a mais heterogênea em matéria de raças da ilha. E recebia naquele dia vários curiosos para uma exibição de luta de espadas valendo uma boa quantia em dinheiro.

Foi sorte a carroça ter chegado naquele dia, pensou Telus. Com tanto movimento nas ruas ficava mais fácil para eles passarem desapercebidos, caso uma patrulha de Armaduras Fantasma aparecesse na cidade. O barco para levá-los até o continente para que pudessem seguir rumo a terra dos elfos só estaria disponível dentro de dois dias. Sanoj e Cronus, que não saía de perto do corpo de Lerandra, trataram de arrumar um lugar para a carroça. Galiléia foi atrás de uma estalagem para passarem as próximas horas.

Telus e Khosta foram ver as passagens no porto. Era preciso saber também quantas moedas de ouro pagariam pelo silêncio do capitão já que teriam que embarcar com um corpo não identificado para o continente. Felizmente, o capitão era de Cervantia, uma terra com um povo sempre aberto a negociações. E ele já possuía até uma tabela para esse tipo de situação: corpo de mártir, 100 moedas; corpo de fugitivo da justiça, 150 moedas; corpo de caloteiro, delator ou X-nove eliminado pela máfia 200 moedas.

Uma vez resolvido este pormenor (graças às moedas que o dragão despejou em cima de Telus), foram se ambientar pela vila. Logo deram de cara com um aglomerado de pessoas próximas ao estádio improvisado na praça central. Um palanque recebia algum líder local que discursava para meia dúzia de transeuntes antes das apresentações de luta do dia.

Em Titânia, a política do pão e circo era usada pelos líderes e muito bem aceita pela população. E o Coliseu da capital era o palco máximo destes espetáculos, que iam da luta corporal às lutas com armas até a morte entre escravos gladiadores. Todos, é claro, sendo alvos de uma grande rede de apostas oficial. Mesmo um cidadão livre poderia tentar a sorte nas arenas em busca de ouro e glória. Era o caso desta final de campeonato e Khosta já começava a coçar sua barbicha.

– Quer saber? Acho que precisamos ver essa luta de perto!

– Se está pensando em apostar as MINHAS moedas de ouro que sobraram, pode tirar o seu cavalinho da chuva. – respondeu o anão com a mão na bolsa.

– Como você pensa pequen... Her, veja bem: nem aquele bruxo maracujá-de-gaveta e nem o Barão vão deixar barato o que fizemos pra eles até agora. E com o Alambique longe, não sobrou nenhum guerreiro pra cuidar da nossa pele. Ou você quer levar sozinho todo tipo de bordoadas daqui até Álfheimr?

– Você sugere que contratemos um segurança?

– E por que não?

Concordar com Khosta era algo que Telus demorou muito a se acostumar. Mas não era uma má ideia. Se estes guerreiros chegaram à final do campeonato, é porque tinham valor. Em volta da arena, uma arquibancada lotada cheia de curiosos aguardava a luta principal. Antes, alguns pesos penas se apresentavam com espadas de madeira ou em lutas corporais. Khosta aproveitou para saciar seu vício em jogos junto a um apontador de apostas:

– Meu amigo, quem serão os carcamanos finalistas da luta principal?

– O desafiante é um mercenário titaniano da Ilha Constantine. Ele é um principiante, mas derrotou todos os oponentes até agora. Vai enfrentar um titaniano mais velho da capital com tradição nos ringues de luta mano a mano. Ele era uma celebridade por lá, acho!

– Era? E não é mais? E o desafiante é mais jovem, heim? Taí, aposto no mais novo. Qual o nome?

– Não sei se é o nome verdadeiro, senhor, mas se inscreveu como Shokozug de Constantine.

– Bota essas pedrinhas de platina aqui nele então! He, he, he...



*****



Galiléia terminou de fazer as reservas na estalagem e saiu em busca dos amigos. Lá fora, havia um reboliço maior do que quando chegaram pela manhã. Na rua, as pessoas abriam passagem para alguém e a primeira coisa que ela pensou foi que seria uma tropa de Armaduras Fantasma.

De onde estava pôde ver um cavaleiro de couraça negra, capa escura e longos cabelos da mesma cor. Estariam abrindo caminho para o Barão com uma nova armadura? Galiléia nunca tinha visto o seu rosto e, até aquele dia, nem chegou a conhecer alguém que tivesse visto. Arriscou a sorte e fico por ali no meio da multidão que via o cavaleiro passar:

– Quem é esse belo homem, senhora? – perguntou a uma camponesa.

– Não sei, mas deve ser da nobreza. Ele é mesmo um pedaço de mau caminho, não? Deve ter vindo por causa do torneio de lutas na praça.

A rua daria na tal praça principal e o cavaleiro rumava em sua direção ignorando todos e abrindo caminho apenas pela sua presença. Galiléia foi em busca de Cronus e dos demais. Nasthia não era mais um “porto seguro”.



*****



Na estrebaria, Cronus pagou por dois dias de espaço onde poderia deixar a carroça e, dentro dela, sua preciosa carga em segurança. Sanoj se despediu ali do amigo dizendo ter na vila uma rapariga que iria visitar. Combinaram que ele voltaria daqui a dois dias para levar a carroça até o porto onde embarcariam as bagagens e depois estaria liberado.

Resolveu ficar ali por perto para ter certeza de que ninguém entraria no celeiro alugado. Daí, acabou ficando em uma barraca a céu aberto e pediu algo para beber. Lembre-se de que esse porto era uma área mais aberta às raças não humanas e só por isso permitiram que ele se sentasse.

Algumas horas se passaram e ele, já na terceira saideira, pede a conta para ir embora. Na saída, vê um coroa oriental vestindo um fino manto e muito mal acompanhado por uma Armadura Fantasma falando com o dono da estrebaria. “Maldito, já vai dar com a língua nos dentes!”, pensou. Não teria tempo de achar os demais, então teria que fazer algo. E rápido!



*****



Na arena, as lutas preliminares divertiam a todos, quando Galiléia conseguiu achar Telus e Khosta:

– O que é que vocês estão fazendo aqui vendo essas barbaridades? Eu os procurei por toda a cidade!

– As barbaridades nem começaram, essas são só as preliminares. As barbaridades vão começar agora com a luta principal – respondeu Telus.

– Fiquem atentos, o Barão pode estar na cidade. Ninguém sabe como ele é sem aquela armadura prateada! – alertou a freira enquanto sentava ao lado deles na arquibancada..

– SENHORAS E SENHORES! – gritou no centro da praça o bardo que apresentava o evento. – É com imenso prazer que o Porto de Nasthia recebe os finalistas do torneio de lutas deste ano de 1001. E os organizadores este ano têm a honra de receber um ilustre espectador, membro da mais nobre estirpe que este evento já recebeu!

Galiléia gelou vendo o tal cavaleiro negro que tanto chamou a atenção pelas ruas durante a manhã sentando-se na tribuna de honra, criada especialmente para ele, ali em cima da hora.

– Ilustre espectador? – gaguejou ela.

– Mais nobre estirpe? – acompanhou Khosta.

– É o filhodeumaqueroncaefuça do Barão? – finalizou Telus.

– Uma salva de palmas para... LORDE WATARU, cavaleiro de confiança do Imperador, senhor de terras e general de Legiões do Império de Titânia. Palmas, palmas! – esclareceu o bardo.

Os três respiraram aliviados enquanto batiam trêmulas palmas no meio da exaltada multidão. Exaltada e assanhada, pois corria a boca pequena que o lorde era solteiro e desimpedido. Mas, para Galiléia, o importante era que, seja lá quem ele fosse, não era o Barão Ricardus I.

– Então é isso, amigos de Nasthia, é chegada a hora pela qual tanto esperamos. Os dois finalistas já estão aqui, as apostas já foram encerradas e só um vitorioso sairá desta arena – pausa dramática do bardo.

– E talvez só um... saia vivo! – mais uma pausa dramática e sensacionalista preenchida por vários comentários na platéia.

– E sem mais delongas, peço que olhem à minha esquerda. Eis o desafiante com 1,80cm de altura, pesando 80 quilos e nenhuma derrota em seu primeiro torneio: Shokozug de Constantine!!!

Khosta beijou seu bilhete de apostas enquanto o povo aplaudiu um guerreiro de armaduras peitorais negras, elmo que protegia o rosto e um rabo de cavalo branco. Quando Khosta o viu com calma e reparou em seus cabelos brancos chegou a temer pelo adversário: Se o mais jovem tinha cabelo branco, o mais velho entraria numa cadeira de rodas? “Tava no papo” pensou!

– Por que estamos aqui vendo isso? – perguntou Galiléia.

– O mago sugeriu a gente contratar o vitorioso pra reforçar nossa segurança, caso o Velho da Torre apareça de novo. E também apostou uma grana em um dos dois aí.

– Ah... tá. – balançou a cabeça em sinal de desagravo.

– E AGORA... Eu peço sua atenção para o meu lado direito. Ele, que durante anos foi o campeão do clube da luta da capital de Titânia. O ex-lutador que ingressou tardiamente no mundo das arenas de espadas e agora busca o seu segundo título. Com 32 anos, 2 metros de altura e pesando 98 quilos... O garanhão titanianoooo... Sylvester Orfelius!!!

A platéia foi ao delírio e aplaudiu de pé ao guerreiro que entra correndo na arena com a espada embanhada, dando socos no ar e agradecendo a saudação com um sorriso!

– Huá, huá, huá... acho que o seu favorito é apenas “seu”, Khosta!

– Cão que ladra não morde! Vamos ver se essa marra toda agüenta uma espadada de um cara mais novo!

Mais alguns minutos de preparação e o homem do gongo dá o sinal. Os dois brutamontes adentram o centro a arena de espadas em punho e escudos começando a luta. Shokozug mostrou mais vigor na entrada e, com golpes certeiros, visou acertar algum ponto vital do oponente para terminar logo a peleja. Sylvester tem um estilo mais teatral, provavelmente herdado das arenas de luta corporal. Acabou levando o primeiro corte de Shokozug, no braço. Usando o escudo como uma extensão do punho, ele esmurrou Shokozug, desequilibrando-o e aproveitando a deixa para retribuir o golpe.

A luta não deveria ser até a morte. Pelo menos em teoria, mas acidentes acontecem. As armas eram de verdade e o prêmio de cinco mil moedas de ouro, um bom incentivo para mandar o adversário para a cova. Cada golpe bem dado garantia uma quantidade de pontos para o atacante, e depois de um tempo, esses pontos decidiriam quem seria o vencedor. O que costumava contar mais pontos era desarmar o adversário. A não ser que alguém caísse morto no chão, aí os pontos deixavam de valer e o que ficasse de pé, obviamente, levaria os louros da vitória e as loiras para a cama.

Depois de incontáveis minutos de pancadaria, já cansados e feridos, os dois guerreiros mantinham a luta equilibrada. Golpe após golpe, Shokozug, com seu estilo agressivo, conquistava sua parcela de fãs loucos por sangue. Até que Sylvester, usando sua massa corporal, partiu pra cima e com um golpe de esquerda (a mão do escudo) desarma o campeão de Constantine encostando a ponta da espada em seu peito e garantindo a apertada vitória da tarde!!!

O povo foi ao delírio, as mulheres gritavam, as crianças pulavam e o Khosta não parava de chorar...

– Não acreditoooo! Exijo recontagem, meu campeão estava vencendo!!! Vão parar só porque ele perdeu a espada? Marmelaaaadaaaa!!!

Os dois guerreiros se cumprimentaram na arena e receberam seus troféus ao mesmo tempo em que apareceram curandeiros patinando no sangue e areia para enfaixar suas feridas. O campeão Sylvester recebeu a recompensa do organizador e um cinturão de ouro de Lorde Wataru. E o levantou bem alto, dedicando a vitória a sua esposa!

– Eu gostei dele, Khosta! – disse Galiléia.

– Eu odiei... – respondeu rasgando o bilhete.



*****



Enquanto Telus e Galiléia se divertiam às custas do azar do amigo apostador, Cronus, ainda lá na rua da cocheira, procurava um canto para fazer um feitiço de invisibilidade e tentar ouvir o que queria o sujeito acompanhado da Armadura Fantasma. E nada mais suspeito do que um elfo tentando se esgueirar numa terra de humanos. O feitiço lhe garantiria invisibilidade e sua agilidade lhe garantia o silêncio. Mesmo assim, era arriscado chegar perto de alguém com uma Armadura Fantasma, principalmente com o corpo de Lerandra há tão poucos metros de distância. Você faria isso só pra ouvir uma conversa? Cronus fez.

Aparentemente sem saber que estavam sendo ouvidos de perto, o oriental falava sobre uma caixa que veio num barco vindo do reino de Avalônia e que estaria em um de seus estábulos. O gerente concordou e o levou até o local. Seguindo os três, Cronus viu que se dirigiam para o fundo do terreno, no mais afastado depósito. Seria um instrumento de mineração? Uma arma de guerra para combater os oponentes do Barão?

O gerente abriu a tranca, dizendo que os homens do navio vieram e deixaram uma caixa lá dentro. Devem ter sido uns cinco caras, pensou Cronus, pois a caixa tinha dois metros de altura por um metro de largura aproximadamente. Era toda fechada com exceção de um respiradouro na parte superior. Não poderia ser um cavalo pois ele não caberia ali. Seria um prisioneiro?

– Veio alguma mensagem do remetente? – perguntou o oriental.

– Nada por escrito, senhor Rastan. O mensageiro que a trouxe só pediu para dizer “Espero que lhe agrade destruir esse presente tanto quanto me foi agradável capturá-lo! Assinado: Duque Ruivo”.

– Maldito duque! Quer ficar com todas as glórias. Tome! – e lhe entregou uma sacola de moedas. – Isso é para que essa mensagem fique só entre nós. Armadura, traga o transporte para cá e mais soldados. Vamos levar isso ainda hoje para o seu mestre!

Cronus teve que pensar rápido. Se ficasse do lado de fora só entraria arrombando a tranca. E se ficasse dentro para saber o que tinha na caixa ficaria preso dentro do depósito. Eu não gosto de generalizar dizendo que “todos os elfos são iguais”. Mas, se existe uma verdade é a que todo elfo que eu já conheci era curioso como um gato!

O gerente fechou a tranca. Com DUAS voltas, conforme exigiu o oriental. Depois saíram pra discutir o pagamento e trazer o tal transporte. Do lado de dentro ficou a caixa misteriosa, toda trabalhada em madeira e detalhes laterais de aço. E vista de perto era cheia de detalhes pirografados na madeira, como pequenas runas cujo significado talvez Khosta soubesse. Mas Cronus, não. É, você adivinhou se pensou que ele ficou lá dentro. Ainda invisível, arrastou um balde para servir de apoio e poder olhar pelo respiradouro quem estava lá dentro. Todos os elfos podem “não ser iguais”, mas uma coisa todos têm em comum: uma excelente visão noturna, um dom natural de enxergar no escuro. E metendo o olhão pelo respiradouro, Cronus viu... Nada. Aliás, ninguém. Sem nenhum som de respiração, deduziu então que invisível o prisioneiro não estava. Teria fugido? Mas o oriental olhou lá dentro e não deu falta de ninguém.

As orelhas de Cronus chegavam a tremer diante de tal mistério. Resolveu olhar novamente, com menos medo de ser descoberto e viu que tinha algo lá no fundo. Sacou uma de suas anotações e conjurou algo. Já estava de pé em cima de um balde, não estava? Então porque não chutá-lo?

Com as mãos em uma das trancas, conjurou um feitiço. O cadeado balançava com se vivo estivesse, mas não abriu. Resistiu a seu feitiço de abrir trancas copiado do livro de Lerandra. Perdendo a esportiva, sacou de sua espada e deu uma pancada na tranca. Que também não abriu. Se fosse eu no lugar dele, pensaria “O que estava lá dentro valia tanto a pena assim?”. Mas o que vinha na cabeça de Cronus era, “Se alguém teve tanto trabalho para esconder algo é porque vale a pena, sim”.

O elfo tomou distância e se jogou contra a caixa derrubando-a no chão. Sua intenção não foi quebrá-la e sim deixá-la de lado no chão. Assim poderia olhar melhor pelo respiradouro e ver o que é que estava guardado lá dentro. Seria uma arma? Um animal raro?

– Um livro???

Com a caixa deitada no chão como se fosse um esquife o elfo olhava sem acreditar que alguém teria tanto trabalho para colocar um livro numa caixa daquele tamanho. O livro era grosso e estava aberto lá dentro. Cronus meteu a mão pelo respiradouro para tentar ver a capa. O livro se mexeu como um peixe jogado num barco de pesca e quase matou o rapaz de susto. Seu reflexo foi largá-lo, mas sua mão não obedecia. Cronus puxou o braço lá de dentro, mas o livro não passava pelo respiradouro. E sua mão estava presa como numa armadilha.

– Me solta, filhoda...

– Ouviu o barulho lá dentro?

Cronus gelou de medo e suas orelhas proeminentes tremiam como sinal de perigo. Alguém estava vindo abrir o depósito. Seu feitiço de invisibilidade já tinha ido pras cucuias quando ele tomou a atitude brusca de derrubar a caixa com um trambolhão. Feitiços de invisibilidade são úteis, mas muito sensíveis a movimentos bruscos.

“Agora ferrou”, pensou o elfo. Quase literalmente com a mão presa na botija, ele continuava tentando largar o livro, ou pelo menos puxá-lo pra fora na marra, mas o livro não rasgava fácil. Lá fora passos fortes de gente com armaduras. Cronus meteu a outra mão dentro da caixa e tentou abrir o livro em uma página qualquer. O livro brilhou e começou a se auto-folhear. Barulho de chave na tranca, primeira volta.

As folhas pararam de se mexer e abriram numa página em escrita élfica e no topo, em letras garrafais, o título “LEIA AGORA!”. Barulhos de chave na tranca, segunda volta e alguém dizendo em voz de comando: “Entrem rápido, mas não toquem na caixa. Ela não deve ser avariada!!!”.

Cinco Armaduras Fantasma entraram no depósito e deram de cara com uma caixa caída no chão. O oriental passa por elas, olha dentro da caixa, olha em volta e começa a gritar balançando os braços pro gerente e pras Armaduras:

– Gǒu niang yǎng de! Nǎ lái de shū, yǐjīng zài zhèlǐ? Měi gèrén dūhuì sǐ zài zhè biǎo zi! Wǒ de míngzì shì zé pèi kè nuò, gāisǐ!

Eu gostaria de lhes contar o que ele disse, mas o meu mandarim não vai tão longe.



*****



À noite, numa pousada cedida aos participantes do torneio, um mal humorado mago pedia para falar com o campeão do dia. O estalajadeiro disse que ele estava com alguns fãs na cantina e que ele podia entrar. E, lá dentro, um enfaixado campeão, cercado de gente, falava pelos cotovelos:

– Hehehe, é, aquele Choconugue briga mais que a minha sogra em dia de banho, mas é como diz o ditado, né?

Todos aguardaram o tal ditado, mas o campeão pediu mais uma rodada e o assunto ficou por isso mesmo.

– Boa noite, senhor Orfelius. Meu nome é Khosta e este é meu associado, Telus.

– Oi, pessoal, podem me chamar de Sylvester mesmo! Seu amiguinho quer que eu autografe o machado dele, quer?

– “Amiguinho”? – disse o anão, franzindo a testa.

– Olha, Sylvester, eu vou direto ao assunto. Nós ficamos impressionados com o seu estilo de luta lá na arena. E estamos com uma longa viagem pelo continente marcada para sair daqui a dois dias. Gostaríamos de saber se você gostaria de ir conosco para...

– Pra um torneio?

– Não. Para cuidar da comitiva.

– Como líder? – perguntou o animado guerreiro. Aí Telus se esquentou:

– Líder? Você levou alguma pancada na cabeça lá na arena? É pra fazer a segurança, cara! Bucha de canhão! Comissão de frente! Proteger a retaguarda! Alvo de pancadas mesmo!!!

– Aí, Telus, viu? É por isso que eu não quis que você viesse...

– Hehehehe, ele é pequeno, mas tem a boca grande, né? – disse Sylvester, sem perceber que estava botando mais lenha na fogueira.

– PE-QUE-NO?!?

Khosta jogou um pano quente:

– Telus, deixa eu falar com ele...Vai dar uma volta lá fora, depois a gente se fala!

– E vou mesmo... Líder, essa é boa...



Telus deixou a estalagem resmungando. A verdade é que estava mesmo com a cabeça cheia e a última coisa que queria era negociar preços e condições. O anão sempre viveu na ilha, nunca viajou para além dela. Aliás, nunca tinha saído de sua cidadezinha até conhecer Peter Paul. Agora estava a poucas horas de singrar o oceano aberto. De pisar no tão falado continente. Conheceria outros anões por lá? Já estava se acostumando com o respeito conquistado a duras penas na ilha. Conseguiria fazer o mesmo no mundo lá fora?

O machado pendurado nas costas se mexeu sozinho.

– E você? – disse o anão para a arma. – De onde veio e como é que conseguiu botar o Velho da Torre pra correr daquele jeito?

Sem ninguém por perto para chamá-lo de louco, ele segurou o machado perto do rosto e continuou o quase monólogo:

– Não pense que eu não reparei que ele mudou a atitude quando te viu voando!

O machado continuava tremendo, quando Telus ouviu passos. Um sujeito de estatura média vinha cambaleando sozinho pela rua e sua silhueta era conhecida.

– Cronus? Eu não vi você o dia todo. Onde guardaram a carroça?

– Oi, Telus! Ela está segura, não se preocupe. – respondeu o elfo com olheiras e com cara de cansaço.

– Você está vindo de fora da cidade?

– É uma longa história. Eu... – o elfo foi interrompido por movimento vindo da sua mochila.

– Que é isso aí, orelhudo? Você tem um bicho na mochila?

– NÃO! Não tem nada! Você sabe onde estamos hospedados? Eu tô com os pés doendo, com sono e com fome!

– Vocês elfos são estranhos. Fica quieto, machado!!!

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